Reciclagem informatizada

Desenvolvido software, único no país, específico para cooperativas de catadores.

O projeto Inclusão Social dos Catadores de Material Reciclável de São João del-Rei e Conscientização Ambiental, coordenado pela professora Valéria Heloísa Kemp (Dpsic), duas vezes premiado com recursos do Prêmio Banco Real Universidade Solidária, volta a ser notícia. Como resultado do amadurecimento autogestionário proposto desde a sua implantação, são os próprios catadores quem agora gerenciam a contabilidade de sua empresa, registrada – da pesagem ao cálculo do valor a receber – em computador, num programa especialmente desenvolvido para os sócios de um empreendimento coletivo que se pretende solidário.

O CataFácil é um software específico para esse público, e tem por função simplificar a gestão contábil e financeira de cooperativas de catadores de materiais recicláveis. O grande diferencial que apresenta é a interface extremamente amigável, própria para ser utilizada por pessoas que acabaram de se alfabetizar e que nunca tiveram contato com a informática. O ganho maior, na opinião de Valéria, foi a conquista da autonomia em uma etapa do processo de gestão que vinha sendo considerada a mais problemática.

Desde a inauguração do galpão da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de São João del-Rei (Ascas), há quase três anos, o controle financeiro se impôs como grande dificuldade para todo o grupo, dada sua própria complexidade, aumentada quando aplicada às especificidades do trabalho cooperado. Na Ascas, é recolhido o material de cada um dos cooperados e processadas as doações, mais triagem, pesagem, junta, fardamento e revenda. Antes do software, cada etapa do controle era registrada, pelos associados, num livro diferente, e depois relançada em planilhas de Excel por alunos da equipe da UFSJ, uma atividade mecânica que chegava a consumir 15 horas de trabalho semanal, além de gerar especulações sobre a ocorrência de fraude, pois alguns catadores tinham dificuldade em entender as planilhas.

Com o crescimento de 40% no volume de negócios da Associação, o que já significava quase dois mil lançamentos mensais para 20 toneladas de material, a tendência era de que a situação se agravasse. Foi quando ganhou corpo a idéia de delegar essa função aos catadores, desde que num programa de controle automatizado mais fácil de lidar. Essa a primeira dificuldade: não havia nada semelhante no mercado. A solução seria, então, criar um softer adequado às necessidades da Ascas. Nascia o CataFácil.

Tecnologia social

O programa, único no país, foi estruturado com base na dinâmica organizacional do empreendimento, no que em muito contribuiu a formação técnica em contabilidade de um dos responsáveis pela gerência financeira do projeto, David Romeros, egresso do curso de Psicologia, ainda hoje ligado à Ascas. A programação foi desenvolvida voluntariamente por Carlos Magno Brighenti dos Santos, que cursa o mestrado em Física, Química e Neurociência.

Os mecanismos de inserção e retirada de dados são de manuseio bastante simples, bastando aos operadores seguir as instruções claras que surgem na tela, reforçadas por recursos visuais e barras de rolagem que listam as opções da função escolhida. Para garantir transparência à inclusão de dados, nenhum catador lança no sistema sua própria produção. Duplas se revezam nesse trabalho, e o programa identifica, pela senha inicial, o responsável pelo lançamento. Todas as funções geram relatórios: de estoque, vendas, fardamento, mutirão, sobras e estatística de produção. “Não precisa mais anotar na caneta. É só entender as letras e os números do computador para entrar no programa”, explica Marcos Antônio Rodrigues, um entusiasta do CataFácil.

Protegido pelo registro no INPI (leia box), o softer em breve estará disponível para uso em outras cooperativas, numa “versão flex”, adaptável às exigências de cada associação. “Como não se trata de uma tecnologia padrão, pensamos em desenvolver parâmetros essenciais, caso de pesagem e distribuição, que poderiam ser configurados para a demanda de qualquer empreendimento”, explica David.

O interesse, até mesmo pelas características que definem o Projeto Catadores, não é divulgar o software comercialmente, mas sim como tecnologia social de motivação espontânea, que contribua para multiplicar os benefícios do CataFácil junto a um público marginalizado pelo mercado. O que se quer são mais frases como esta: “Quando eu ia imaginar que um dia eu estaria tocando um negócio meu, até mexendo no computador!”

Primeiro registro

O processo de registro do software CataFácil 1.0 foi integralmente coordenado pela Comissão de Propriedade Intelectual (Copin) da UFSJ, desde a produção dos termos de acordo e cessão de direitos patrimoniais, até o protocolo junto ao INPI. Este é o primeiro registro de software de titularidade da UFSJ. A proteção aos softwares é regida pela Lei 9.609/98, a qual considera o direito do autor sobre um programa de computador como direito autoral. A documentação com o código fonte do softer permanece depositada no INPI em sigilo. Sea implantação do programa for onerosa, os autores, David e Carlos, receberão royalties e a devida citação de seus nomes, na forma da Resolução 022/Consu/2006.

(Assessoria de Comunicação da UFSJ)



Deixe uma resposta